terça-feira, 21 de abril de 2009

Sede de Aventura (texto de Guilherme Cavallari Gomes)

Você com certeza já ouviu falar em "sede de aventura", não? Provavelmente já sentiu isso também... Um certo arrepio que não é de frio, a sensação do sangue correndo mais rápido nas veias só porque um louco na TV está investigando uma caverna cheia de tesouros escondidos e o teto começa a desabar... Então você começa a fantasiar que é você dentro da caverna, que é você pilotando o bimotor dando razantes sobre a floresta tropical, desviando dos dardos envenenados e que a heroína do filme está apaixonada por ninguém menos que... você! Tudo então parece possível, o Nilo não é tão distante assim, a muralha da China não é tão enigmática, falar árabe com os beduínos soa como algo fácil de ser aprendido em poucos meses no deserto... Não se preocupe, você não é infantil e sonhador, o Indiana Jones causa essa emoção em quase todo mundo.

Mas, por que? Por acaso sua vida não é boa? Você não gosta do que faz? Do lugar onde mora? Afinal, o que está faltando?

- O retorno à vida animal, - responde uma vozinha dentro de nós... e aquele curso de sobrevivência na selva ganha mais um aluno, ou você compra uma roupa de mergulho.
Acontece que o mundo que nos cerca está cada dia mais urbano, mais mecânico e automático. A sobrevivência, que era a única grande preocupação dos nossos ancestrais ficou resumida a um emprego. Ninguém precisa caçar para comer, espantar ursos de cavernas para se abrigar. Você tem sede? Abra a torneira. Tem fome? Vá até a geladeira. Quer falar com um amigo distante? Pegue o telefone. Quer ver um amigo ainda mais distante? Pegue um avião. Tem que subir uma ladeira? Vá de carro. Um edifício? Elevador. Se faz frio você liga o aquecedor. Se faz calor, liga o ar-condicionado - e assim por diante. Isso sem falar na mais diabólicas das invenções do Reino da Preguiça: o computador plugado na Internet! Com ele a gente não precisa nem fazer sexo de verdade, muito menos "sair à caça". É tudo virtual. Tudo cada vez mais seguro, confortável e barato...

TUDO CADA VEZ MAIS MONÓTONO! Não vai demorar muito e o único músculo que o homem precisará exercitar na vida será o do dedo indicador - para apertar teclas!
Só que existem pessoas que têm dificuldade em sair de vez das cavernas, gente que sente uma certa saudade ancestral de caçadas ao luar, do cheiro do mato, de fogueiras em noites escuras, da água gelada da chuva, do cheiro carregado do mar soprando ameaças de borrasca. Saudade da aventura de viver. Gente que parece estar na contramão da evolução tecnológica... Gente como você e eu.

Nada contra o forno de microondas ou o fax, muito pelo contrário, adoro tecnologia, mas não quando ela nos transforma em almofadas de sofá.
Pergunte a um cara que voa de asa delta porque ele voa - ele provavelmente dirá que gosta de ver o mundo lá de cima. Mas nós sabemos que é muito mais que isso. Voando de asa delta, descendo um morro a 70 km/h sobre uma mountain bike, mergulhando entre cardumes ao lado de um naufrágio, caminhando dias dentro de uma floresta cerrada, esquiando, escalando, velejando, patinando, nos faz sentir a vida como uma grande aventura, exatamente como ela um dia já foi e como sempre deveria ser. Então, meu amigo globalizado, não adianta aumentar no último o volume do CD player, ligar o ar-condicionado do carro blindado ou telefonar para o seu analista do celular... Você nunca estará protegido dos seus próprios instintos.

Desista, você não passa de um animal!
Não é à toa que existem hoje tantos programas sobre esportes radicais na TV, tantos programas sobre aventuras e lugares exóticos, tantas revistas explicando como construir um veleiro, como escalar montanhas, como isso e como aquilo. Tudo na tentativa de alcançar o sonho da aventura em cada um de nós, amainar essa tal sede que nos racha a garganta.

Meu conselho a vocês, sedentos como eu, é simples: não remem contra a maré dos seus instintos. Arrisquem-se, aventurem-se, chacoalhem o esqueleto - de preferência em contato com a natureza, ao invés de numa academia cheirando a desinfetante e perfume francês Made in Paraguay. Conforto não é tudo na vida - muito pelo contrário.

Uma vida sem aventura não merece ser chamada de vida. E, afinal, como diz um amigo meu:
- Depois que pisei no meu primeiro estrume de vaca e sobrevivi, nunca mais tirei as botas dos pés! - E ele faz uma pausa de efeito, para depois completar, cheio de filosofia veterinária:
- Somos todos animais, graças a Deus!

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